sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

DEMOCRACIA É ISTO!

Por José de Assis Tito (*)


“A democracia não é o melhor regime, mas o pior é que não existe outro melhor”. A célebre frase de Churchill sempre me vem à mente quando encaro os empecilhos do jogo democrático. A liberdade, muitas vezes duramente conquistada, gera excessos, como os recentes ataques do jornal Estado de Minas à mídia exterior. Apesar de reconhecer a importância do direito constitucional de “livre expressão” da mídia, é preciso entender que os veículos às vezes erram e ultrapassam o limite do bom senso e da ética.

A edição do último domingo do jornal trouxe a manchete “Outdoor faz mal à saúde”. A matéria assinada pela repórter Flávia Ayer afirma: “Basta olhar para as ruas: Belo Horizonte está infestada por uma praga chamada outdoor. Praga no sentido literal da palavra, já que arquitetos urbanistas advertem: em excesso, engenhos de publicidade causam mal à saúde da cidade.” Quais urbanistas? Que estudo científico prova isso? O texto esquece de dizer. Dessa maneira, sem maiores explicações, os responsáveis pela reportagem utilizam o poder de alcance do Estado de Minas para escrever o que lhes interessa. A mentira é repetida até o ponto, de quem sabe, virar realidade.

Ao receber o prêmio de “Brasileiro do Ano”, oferecido pela revista Istoé nesta segunda-feira, o presidente Lula afirmou em seu discurso que “os jornais fazem mal ao país”, ao destacarem fatos negativos nas manchetes. Ele chegou a afirmar que “no Brasil tem uma coisa engraçada: tem dias que você acorda, você lê os jornais, a vontade é de se matar, porque o mundo está acabando. Se você, então, ficar só nas manchetes, nem sai de casa. Porque tem um certo azedume, ou seja, aquela coisa tão azeda, que faz mal para o país”. Lula também exagerou ao condenar o trabalho dos jornalistas e classificá-lo como negativo para os brasileiros.

O Estado de Minas se equivocou em sua função, assim como o presidente Lula, que exagerou no tom. Outdoor não faz mal à saúde, os jornais também não fazem mal ao País. O viés interpretativo de ambas as fontes, com baixo teor de bom senso, destorceram a verdade.

A comunicação na via pública é importante e existe nas principais cidades do mundo. O jornal é essencial ao exercício democrático. Ambos os meios, outdoor e jornal, trazem mais benefícios que malefícios. A existência de resquícios de uma imprensa marrom não justificaria o fim do jornal, assim como dados distorcidos não justificam o fim dos outdoors.

Ao implementar a Lei Cidade Limpa, em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab prejudicou inclusive, o bolso do paulistano. Ao anunciar essa semana o gasto previsto de R$126 milhões com publicidade em 2010, Kassab começa a demonstrar fortemente seu erro. A mídia exterior reduz o orçamento com comunicação, já que é de largo alcance e os custos são muito menores do que em televisão, por exemplo. Os salgados aumentos em impostos como IPTU e IBTI, encherão os cofres da prefeitura, que poderia usar a verba em saúde e educação, mas preferiu aumentar em 240% o orçamento com publicidade, quando comparado com 2008.

A manchete do Estado de Minas do último sábado afirmava que “Vereadores jogam sujo com BH”, e complementava: “Pesquisa mostra que 92% dos moradores são a favor da cidade sem outdoors, mas projeto na Câmara Municipal contraria a vontade de 2,5 milhões de habitantes”. Novamente a velha máxima que lembra Hitler e companhia. Onde está a pesquisa? Quem fez a pesquisa e qual é o interesse dela? O respeito às decisões de instâncias democráticas é o principal vetor do convívio político e social. A Câmara Municipal de Belo Horizonte é fórum adequado para avaliar o que é ou não conveniente aos habitantes da cidade. Os vereadores são pessoas respeitáveis, com folha de serviços prestada, e que merecem consideração e respeito.

Melhor para a cidade seria o jornal declarar publicamente a razão de tamanha insistência em abolir a mídia exterior. Talvez o assunto renda muito interesse ou a política editorial da publicação tenha interesses que vão além da “beleza” de Belo Horizonte.

BH, 09/12/09.



(*) Vice-presidente da Fenapex (Federação Nacional da Publicidade Exterior), Vice-presidente do Sepex-MG (Sindicato das Empresas de Publicidade Exterior do Estado de Minas Gerais), Diretor da Asdoor (Associação das Empresas de Outdoor e Similares do Interior de Minas Gerais) e Diretor da Mídia Provider.

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